O presidente Lula que desde o dia 30 de outubro muitos diziam que não subiria a rampa, o fez em auto estilo. Pela primeira vez na história do Brasil um presidente eleito democraticamente ou não, subiu a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de um animal, no caso a cadelinha Resistência (adotada e sem raça definida, ela é Embaixadora Canina de Adoção Animal, recebeu o título em 2022 durante o Dia Nacional dos Direitos Animais).

O ex presidente Jair Bolsonaro derrotado em sua tentativa de reeleição não é o primeiro presidente a se negar a transferir a faixa presidencial para seu sucessor na história do Brasil, no entanto ele é o primeiro presidente a abandonar o país antes de terminar seu mandato, ou seja em poucas horas antes de terminar o mandato que lhe foi conferido pelo povo, Bolsonaro preferiu se transferir para Miami, em um condomínio de luxo na residência de propriedade do ex-lutador de MMA José Aldo.


O fato é que os outros dois casos de presidentes que se negaram a transferir a faixa presidencial também eram como Bolsonaro, militares e seus sucessores civis. Coincidência?
No Brasil a faixa presidencial foi instituída através do Decreto n.° 2.299, de 21 de dezembro de 1910, assinado pelo Presidente da República Hermes da Fonseca.
Em 15 de novembro de 1894, o militar Floriano Peixoto não compareceu à cerimônia de transmissão do cargo para seu sucessor, Prudente de Morais. A tarefa coube a um de seus ministros. O militar estaria contrariado com a transferência do poder para um civil, pela primeira vez. A proclamação da República fora feita por militares em 1889. Antes de Floriano, o primeiro presidente do país, Deodoro da Fonseca, também era militar. Será que como diria Gabriel Tarde: “ A história sempre se repete” ?
Em 15 de março de 1985, João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, deveria passar a faixa para Tancredo Neves, eleito de forma indireta, marcando a retomada da democracia no Brasil. Naquela momento a especulação sacudiu o país para saber quem assumiria a presidência se o vice José Sarney, ou o presidente da Câmara dos deputados, Ulysses Guimarães que prontamente se manifestou com o espírito público e democrático que deve nortear quem deseja militar na política, que legalmente quem deveria assumir seria Sarney como aconteceu. O general Figueiredo todavia se negou a transferir a faixa presidencial para Sarney e teve a infeliz oportunidade de afirmar antes de partir da vida física se justificando, como se houvesse justificativa plausível para tamanha deselegância e gesto anti democrático:
“Sempre foi um fraco, um carreirista. De puxa-saco passou a traidor. Por isso não passei a faixa presidencial para aquele pulha. Não cabia a ele assumir a Presidência”(João Figueiredo, em entrevista à Isto É antes de sua morte, em 1999).
Cinco anos depois em 1990 temos Sarney transferindo a faixa presidencial a Fernando Collor que diga-se de passagem na eleição de 1989 primeira disputada por Lula, o alagoano Collor fez duras críticas ao então presidente Sarney, nem por isso ele se absteve do dever moral de transferir a faixa para seu desafeto político como o fez Figueiredo.
Bem, o que se esperava ser um desprestígio na posse de Lula a ausência de Bolsonaro transferindo a faixa, se transformou em um dos pontos autos da solenidade democrática, afinal a faixa que desde 1910 faz parte do cerimonial de transferência de cargo foi passada de mão em mão por representantes das minorias ainda tão necessitadas de políticas públicas e de inclusão, no total 8 pessoas como, um deficiente físico, uma criança negra de dez anos de idade, um indígena, até que finalmente o presidente recebeu a faixa da presidente da Rede Centcoop (Central das Cooperativas de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis) do Distrito Federal, Aline Souza, 33 anos, uma mulher preta e pobre.

Sinceramente para mim foi bem melhor assistir o presidente receber das mãos de populares a faixa haja vista que como leciona em argumentos o historiador Estevão Martins, professor da UnB, a faixa presidencial:
“É um símbolo que não tem nome, transmitido de uma pessoa a outra. O rito de transmissão da faixa é fundamental para mostrar que o poder também passa”. Daí se conclui que bem melhor que Bolsonaro que fez pirraça, que Mourão que o seguiu também fazendo, que Arthur Lira que se ofereceu, ou de Dilma Roussef que uns imaginaram transferira faixa presidencial, quem o fez é quem realmente detém o poder de escolher seus governantes no Estado Democrático de Direito que graças a Deus e a Constituição de 1988 sagrou, muito embora alguns ainda não entendam: “ Sua Excelência, O POVO”. O que muitos imaginaram ser o “ calcanhar de Aquiles” da cerimônia se converteu em honra e levou muitos a se emocionarem, inclusive esse que vos escreve.

O que causou espanto, mas que também caiu muito bem foi mais uma quebra de protocolos por parte do presidente Lula, uma vez que ele convidou seu vice Geraldo Alckmin e a esposa Lu, para acompanharem ele e a primeira dama Janja no Rolls-Royce modelo Silver Wraith fabricado em 1952, na Inglaterra, e transportado por navio de Londres para o Rio de Janeiro, então capital brasileira, no ano seguinte. Desde então, pertence à Presidência da República e já conduziu todos os presidentes do Brasil, em diferentes ocasiões.
Foi usado pela primeira vez durante o segundo governo de Getúlio Vargas, em 1953, durante as comemorações do Dia do Trabalho, em 1º de maio, em Volta Redonda (RJ).
A partir de então, passou a ser tradicionalmente usado nas cerimônias de posse presidencial. A primeira vez que isso ocorreu foi com Juscelino Kubitschek, em 1956, ainda no Rio de Janeiro.
Para quem não se lembra: “ Recordar é viver” :

Em 2003, para seu primeiro mandato, Lula desfilou em um carro aberto ao lado do vice José Alencar. Na ocasião, houve tumulto e o carro precisou ser empurrado. O incidente ocorreu quando o trajeto de Lula até o Palácio do Planalto foi alterado.
Já no seu segundo mandato Lula ainda não querendo desprestigiar seu então vice presidente reeleito que diga-se de passagem foi por ele hoje lembrado em seus dois discursos tanto no Congresso Nacional, quanto no Parlatório cuidou que providenciassem um carro que conduziu a Alencar e sua esposa dona Mariza Gomes, logo após o Rolls Royce presidencial onde iam Lula e dona Marisa Letícia.


Enfim, a posse aconteceu…
O presidente Lula subiu a rampa como nenhum outro presidente subiu em toda a história do país, a faixa foi devidamente transferida ao presidente eleito e Brasília, a capital projeta por JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa foi palco de “ um mar de gente” estimam-se que cerca de 300 mil lotaram a esplanada dos Ministérios, enquanto que em 2019 na posse de Bolsonaro foram cerca de 115 mil pessoas.
Com relação as delegações estrangeiras presentes na posse de Lula hoje somaram 73 enquanto que em 2019 na posse de Bolsonaro foram 46 delegações estrangeiras segundo o Itamaraty.
O fato é que ao contrário do se supunha o clima foi pacífico e festivo sem que se somasse nenhuma ocorrência gravosa vindo assim a demonstrar que a grande maioria da população da “ Pátria do Cruzeiro” clama por paz social e na alternância do Poder assim ocorre, em 2019 Bolsonaro neste mesmo dia vibrava por ser empossado na eleição que ganhou do hoje ministro Fernando Haddad e hoje exatos 20 anos após sua primeira eleição Lula se sagrou o único brasileiro três vezes eleito e empossado pelo voto direto como presidente da República.
